02 jul

Indústria contrata cada vez mais profissionais pesquisadores

O Brasil passou por muitas décadas de mercado protegido e reduzida concorrência, o que fez com que a busca por excelência e competitividade nas soluções de engenharia não fosse prioridade. Este cenário fez com que as atividades de pesquisa e a formação nos níveis de mestrado e doutorado fossem indevidamente vistas como porta de entrada exclusiva para a academia e atuação docente, diferentemente do que já ocorria nos países desenvolvidos. Mas o cenário mudou drasticamente nas últimas duas décadas.

Além da docência nas Instituições de Ensino Superior e atuação em centros de pesquisa públicos e privados, as empresas de médio e grande porte já preferem mestres e doutores nos seus Centros de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) no país, em especial nos setores aeroespacial, de óleo e gás, metalurgia, saúde, farmacêutico e também automotivo.

Segundo o professor do Departamento de Engenharia Mecânica da FEI, Gustavo Donato, esta percepção tem ampliado muito as possibilidades de carreira e destacado os alunos que se envolvem em pesquisa desde a graduação (por exemplo, nos programas de iniciação científica) até a pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado); e a explicação é simples: “Durante os projetos de pesquisa estes profissionais são expostos a desafios expressivos e multidisciplinares, que só podem ser resolvidos com suporte nos fundamentos, pesquisa bibliográfica, flexibilidade intelectual, senso crítico e uma metodologia estruturada de solução de problemas”, explica o professor que também coordena o programa de iniciação científica da FEI.

No exterior, a maioria dos mestres e doutores está inserida nos centros de pesquisa das indústrias e uma minoria nas universidades formando novos profissionais de alto nível. Além disso, os desenvolvimentos de ponta são usualmente baseados no binômio Universidade-Empresa e muitos dos centros de pesquisa que ficam dentro das instituições de ensino e pesquisa são patrocinados pelas corporações.

Já no Brasil, existe grande concentração dos mestres e doutores na academia, pois estes eram vistos pelas indústrias centralmente como educadores. Mas felizmente o cenário vem mudando; as empresas notaram que somente manufaturar produtos no Brasil agrega pouco valor e não traz competitividade. “Neste cenário, as empresas passaram a ver o profissional/pesquisador como um ativo valioso e passaram a valorizar o seu comportamento curioso, flexível, analítico e inovador. Isto, combinado com a pró-atividade de cada indivíduo (atitude), pode fazer deste profissional verdadeira referência dentro dos setores nos quais atua. O foco não está mais somente no título (engenheiro, mestre, etc.), mas principalmente no que o indivíduo é capaz de desenvolver e inovar com base em seus conhecimentos, métodos e competências de alto nível”, explica o professor.

 

Pesquisador desde a graduação

 

Um bom exemplo desse novo perfil de profissional é o ex-aluno da FEI, Francisco Ferreira, graduado em Engenharia Elétrica com ênfase em computadores e Mestre em Engenharia Elétrica na área de dispositivos eletrônicos integrados, também pela FEI. Ainda na graduação, Francisco fez iniciação científica e assim que se formou começou o mestrado. Sua carreira profissional foi construída toda na LG, desde o estágio até hoje, como coordenador de uma área de desenvolvimento de projetos. O Engenheiro explica que embora tenha trabalhado em áreas completamente distintas na indústria, ele garante que não estaria onde está se não fosse o mestrado e o envolvimento com a pesquisa. “O mestrado me deu ferramentas para encarar melhor a indústria, saber analisar criticamente os problemas, apresentar minhas ideias, escrever relatórios, enfim, me fez um profissional melhor”, explicou Francisco.

O interesse de Francisco pela pesquisa surgiu da curiosidade em entender como as coisas funcionam. “Saber que existia um chip que fazia as contas no computador não era suficiente para mim, queria entender como um processador funcionava desde seu componente fundamental” comenta o engenheiro que acredita também que a tendência é que a indústria contrate profissionais cada vez mais especializados. “Na LG temos vários projetos com instituições de pesquisas, pois ela entende que isso é o fundamento da inovação. Em um mercado competitivo como o nosso uma empresa não sobrevive fazendo sempre a mesma coisa, precisa se reinventar, se superar, inovar, por isso a importância da pesquisa.”

A importância dos Programas de Iniciação

 

Os programas de Iniciação Científica são a porta de entrada natural dos alunos de graduação para a área de pesquisa avançada. E isso não foi diferente com o engenheiro mecânico formado pela FEI, com mestrado e doutorado em metalurgia, Rodrigo Liberto. Atualmente trabalhando na Villares Metals, na função de Gerente de Engenharia de O&G/Energia, Rodrigo conta que a Iniciação Científica foi fundamental para despertar o interesse pela pesquisa. Logo que se formou ingressou no mestrado e na sequência fez o doutorado, sempre na área de metalurgia. “Durante parte da minha jornada profissional fiz pesquisas em paralelo com outra atividade profissional que não tinha relação nenhuma com a pesquisa que estava conduzindo, pelo fato de não ter conseguido uma bolsa durante o doutorado. Pouco tempo depois, já com bolsa da CAPES, tive a oportunidade de atuar na indústria como pesquisador”, explicou o engenheiro.

Segundo Rodrigo, uma das grandes vantagens de quem escolhe a pesquisa como carreira é ter a oportunidade de estar sempre aprendendo, por ser uma profissão que sempre vai trazer desafios. “O meu conselho para quem tem vontade de ingressar na área de pesquisa é começar o quanto antes a Iniciação Científica, pois ela pode aflorar ou não o desejo de atuar como pesquisador”, aconselha o engenheiro.

Rodrigo também comenta que embora as estatísticas apontem para uma abertura da indústria em relação à contratação de pesquisadores, ainda existem poucas empresas que valorizam a pesquisa e o desenvolvimento. “O pesquisador tem plena condição de atuar em várias áreas dentro da indústria, basta a empresa dar oportunidade para estes profissionais. A nossa indústria ainda tem na cabeça que o pesquisador é uma pessoa que não vai conseguir conduzir/resolver os problemas de forma rápida e prática, o que não é verdade”, alerta Rodrigo.

A carreira acadêmica

 

A iniciação científica e o mestrado também foram incentivos para a escolha profissional da professora do Departamento de Engenharia Elétrica e ex-aluna da FEI, Michelly Souza. A professora conta que tinha necessidade de compartilhar com outras pessoas todo conhecimento que ela adquiria com suas pesquisas; foi então que percebeu que a área acadêmica seria a alternativa certa para isso. “Eu digo que a área acadêmica foi uma consequência na minha vida, mas uma boa consequência, pois eu adoro dar aula, ensinar aquilo que eu sei, sobre o que estou pesquisando, poder desenvolver esses conhecimentos em laboratório junto com os alunos, e compartilhando daquilo que eu aprendi e ainda aprendo, pois a busca pelo conhecimento é infinita”, explicou a professora, que também orienta alunos de mestrado na FEI.

A professora lembra que a pesquisa não se baseia apenas em um tema inovador a ser explorado. É um conjunto de aprendizados que envolvem desde a metodologia, escrita, formalização, dentre outros que contribuem para o desenvolvimento tanto de um aluno que está em uma iniciação científica como um profissional da indústria que realiza um mestrado, um doutorado. “Quem se envolve com a pesquisa só tem a ganhar, pois, o conhecimento que se adquire faz de você um profissional diferenciado, e o que o mercado mais procura hoje são profissionais diferenciados”, indica a professora Michelly.

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Matéria publicada no jornal Circuito FEI – Nº15 (pág 12)

21 mar

Como a propaganda atinge o consumidor?

O faturamento publicitário no Brasil cresceu. 2,4% de janeiro a junho deste ano, em comparação ao mesmo período de 2012, alcançando R$ 14,63 bilhões, segundo dados do Projeto Inter-Meios, coordenado pela editora Meio & Mensagem. Apesar de os números serem muito expressivos, a cifra foi considerada a terceira pior variação semestral de receita publicitária em uma década, causada pela falta de visibilidade que ronda a economia brasileira. Este contexto chama atenção para uma questão relevante entre os profissionais da área de Marketing: o que fazer para que a propaganda seja suficientemente persuasiva e alcance o consumidor-alvo de forma a fazê-lo comprar o produto ou o serviço?

Uma questão crítica para se formular uma propaganda persuasiva é escolher quais características do produto ou serviço devem ser enfatizadas e como essa informação deve ser comunicada ao público-alvo. Segundo a teoria de nível de interpretação (construal level theory), os consumidores têm uma visão mais abstrata de eventos e objetos psicologicamente distantes, mas a interpretação mental torna-se mais concreta quando o evento está psicologicamente próximo. Isso significa que os eventos próximos são mentalmente interpretados de maneira detalhada e contextualizada, enquanto os distantes são representados em termos de características abstratas e descontextualizadas.

Na pesquisa ‘The Effect of Construal Level and Type of Message on Persuasion’, o professor do Programa de Pós-graduação em Administração do Centro Universitário da FEI, José Mauro Hernandez, sugere que a propaganda deve levar em consideração o nível de representação mental do público-alvo. O estudo demonstra que a mensagem da propaganda torna-se mais persuasiva quando está de acordo com a representação mental do público-alvo. “A maneira como os indivíduos pensam sobre determinado objeto, evento ou até mesmo pessoas é chamada de ‘nível de representação mental’ e pode ser concreta ou abstrata”, detalha.

Inspirada na perspectiva da teoria de nível de interpretação, a pesquisa do docente levanta e comprova a hipótese de que, quando o nível de representação mental do consumidor é abstrato, é necessário enfatizar os benefícios dos produtos ou serviços nas campanhas publicitárias. Entretanto, quando o nível de representação do consumidor é concreto, o mais indicado é explorar os atributos dos produtos. “Nesta pesquisa concluímos que, quando há um matching entre a representação mental do consumidor e a mensagem da propaganda, esta se torna mais persuasiva”, afirma o professor, que trabalha com o estudo há três anos.

Comprovações

Neste período, foram realizados três experimentos para testar as hipóteses desenvolvidas na pesquisa, com o envolvimento de mais de 530 voluntários que passaram por testes e avaliações relacionados a produtos e à representação mental. O primeiro estudo examinou o impacto da distância temporal sobre a avaliação geral de um notebook. No segundo experimento foi manipulado o nível de interpretação dos consumidores por meio da indução de um estado mental abstrato ou concreto, antes de ser solicitado aos participantes que avaliassem dois produtos diferentes. Já no terceiro, os objetivos envolviam replicar os resultados encontrados nos estudos 1 e 2 usando um serviço ao invés de um produto de consumo.

Segundo o professor, nenhuma pesquisa anterior havia examinado o efeito do nível de interpretação sobre o poder de persuasão das propagandas que apresentam atributos ou benefícios. “Por esse motivo, o trabalho tem importantes contribuições gerenciais para aqueles que estão envolvidos na elaboração de mensagens publicitárias”, argumenta. Além disso, os consumidores podem se beneficiar deste estudo aumentando a compreensão sobre as ferramentas e estratégias que os anunciantes e profissionais de marketing utilizam para persuadi-los a comprar determinados produtos ou serviços e, com base nesse conhecimento, tomar decisões de compra mais assertivas e conscientes.

“A sociedade em geral também pode utilizar estudos como este para desenvolver e implementar políticas públicas que condicionam a adoção de técnicas de persuasão éticas. Nosso estudo fornece sementes para várias oportunidades de pesquisa”, acrescenta o docente. Entre as opções está a possibilidade de supor que exaltar benefícios é mais eficaz quando se sugere a compra de um presente para um amigo distante, mas os atributos são mais eficientes quando se está pensando sobre a compra de um produto para si mesmo.

Estudo foi premiado em encontro nacional de Administração

A pesquisa do professor da FEI venceu o prêmio do Encontro Nacional da Associação de Pós-graduação e Pesquisa em Administração (ENANPAD 2013). Realizado anualmente em setembro, o ENANPAD é considerado o maior evento da comunidade científica e acadêmica de Administração no País. A última edição foi realizada entre os dias 7 e 11, no Rio de Janeiro. Organizado em 11 divisões acadêmicas, o prêmio recebeu a inscrição de aproximadamente 400 trabalhos, sendo que 98 foram selecionados para participar do congresso e ser avaliados por professores e pesquisadores da área. A pesquisa do docente da FEI venceu o prêmio de melhor trabalho da área de Marketing. Os estudos premiados deverão ser publicados em um dos periódicos da associação organizadora.

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Matéria publicada na revista Domínio FEI – Nº17 (pág 32)

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