No Pedal Reviewed by Momizat on . -Fê! Fêe! Gritava o marido. - Você está na pista! Sai! Desesperado novamente, ao vê-la entrando na Rio-Santos de bike. Distraída. Bastaria um carro e fim. Segun -Fê! Fêe! Gritava o marido. - Você está na pista! Sai! Desesperado novamente, ao vê-la entrando na Rio-Santos de bike. Distraída. Bastaria um carro e fim. Segun Rating: 0

No Pedal

-Fê! Fêe!

Gritava o marido.

– Você está na pista! Sai!

Desesperado novamente, ao vê-la entrando na Rio-Santos de bike. Distraída. Bastaria um carro e fim. Segundos de alta ansiedade para Cacá. Já se arrependera em convidar para a praia, de bicicleta. Afinal, se exercitariam e poderiam até tomar uma cervejinha sem riscos para a carteira de motorista. Amigos já tinham perdido a carta depois de um dia assim. Com lei seca não se brinca.

O desespero por soluções de transporte contribui para o retorno das bicicletas. Após a compra da magrela, a tendência de que ganhe poeira e esquecimento é reflexo do comodismo, sedentarismo e até status; devidamente acobertados pela defesa da pressa, segurança e até pelo é assim que todos fazem. Andar de bike para o trabalho ainda é tido como ato de pessoa diferente, no sentido pejorativo de estranho. Em países desenvolvidos, exemplo de nórdicos, o constrangido motorista explica ao vizinho o motivo de tirá-lo da garagem. Afinal, o transporte público é suficiente a ótimo bem como as ruas são seguras e adequadas para o tráfego destes silenciosos veículos.

Para que mais e mais pessoas usem bikes há necessidade de informação e educação bem como esforço do poder constituído para que a segurança se avalie pelas estatísticas e não porque se ofereçam inseguras e descontínuas ciclo-faixas.

A população precisa conhecer os custos reais do uso do carro, que varia entre R$ 0,45 a R$ 1,60 por quilômetro rodado. Para quem rode 15.000 km por ano, um ente familiar que exige R$ 6.750,00 a R$ 24.000,00; devidamente computados IPVA, taxas, seguro, pedágio, manutenção, combustível e depreciação, segundo pesquisas pela FEI e UNICAMP para carros populares a médios, ao longo da vida útil ampliada de 20 anos (o usual é vida útil de 10 anos para carros brasileiros). Quanto à demanda energética, carros exigem 20 vezes mais, com a vantagem de gastar energia humana, em cenário avaliado pelo IBGE de peso do brasileiro acima da balança. Ao evitar o carro, evita-se a produção de um kg de CO2 a cada 3 km pedalados, segundo o eccaplan (http://calculadora.eccaplan.com.br/ ).

O Plano Diretor de Mobilidade Urbana (lei 12.587, 3/1/2.012) no art 24 apenas cita a necessidade de foco no transporte não motorizado mas não obriga a efetivação de sistemas contínuos de vias exclusivas para bicicletas, as ciclovias. Ciclo-faixas não são seguras, porque no Brasil é comum ver veículos cruzando qualquer faixa contínua. Não há a devida fiscalização. Que deveria, inclusive, enquadrar ciclistas ousados, sem capacetes, para lhes salvar o que têm de mais precioso. E, não raro, ciclovias são interrompidas justamente nos locais mais perigosos. À noite, ciclistas vestindo preto em bikes idênticas, sem luzes ou refletores, engrossam estatísticas.

Cacá finalmente se tranqüiliza, mas ainda indignado. Fê volta para o acostamento e até se irrita com seus berros.

– Porquê gritou assim?

– Você não viu que entrou na pista?

-Vi sim. Perdi o equilíbrio ao tentar vê-lo atrás de mim.

-Mas podia ter morrido.

O silêncio entre eles se mantém até que ela sorri e toca sua mão, na subida da serra, ao retornarem para suas vidas cotidianas. As duas bicicletas não cobrem a placa traseira.

Creso de Franco Peixoto é professor do curso de Engenharia Civil do Centro Universitário FEI, engenheiro Civil e mestre em Transportes

InfoFEI - Informativo do Centro Universitário FEI