02 Aug

FEI X-1, o primeiro protótipo da FEI

Em agosto de 1968, um clima de mistério tomou conta das redondezas do galpão da faculdade de Engenharia Mecânica. Tudo estava escondido atrás de tapumes, para que ninguém mais soubesse o que estava sendo construído lá dentro. Alunos entravam e saíam do galpão, despertando a curiosidade dos demais estudantes, mas nada era comentado. Naquele local ficava o Departamento de Estudos e Pesquisas de Veículos (DEPV), coordenado por Rigoberto Soler, professor de Carroceria do então curso de Engenharia Operacional na modalidade Mecânica Automobilística.

O resultado de tanto sigilo foi o que se considerou na época o carro do futuro: o FEI X-1, um veículo anfíbio de propulsão aerodinâmica para andar sobre rodas e sobre colchão de ar. Ele foi projetado e construído por Soler e os alunos que se dispuseram a passar os próximos 60 dias totalmente envolvidos com o veículo, que seria apresentado no Salão do Automóvel de São Paulo.

O desafio era grande, pois o projeto disputaria a atenção do público e imprensa com os lançamentos das montadoras, que estavam se preparando há muito mais tempo para o evento. No entanto, os alunos da FEI não se intimidaram e lançaram-se ao trabalho, que ficou pronto antes do prazo estimado.

No chão e na água

O FEI X-1, primeiro protótipo saído do DEPV, era construído em madeira e pesava apenas 380 kg. Seu aspecto futurista vinha das linhas aerodinâmicas da carroceria, além da hélice e o leme colocados na traseira. Ele tinha rodas traseiras de Gordini e duas gêmeas de Kart na dianteira. A partir de determinada velocidade (60 km/h) a dianteira se levantava e o FEI X-1 passava a usar um colchão de ar, impulsionado pela hélice.

Seu motor era de Gordini e a transmissão tinha apenas duas marchas: uma para frente e outra à ré. Uma das grandes novidades do veículo estava na direção – em vez de um volante, o piloto o dirigia com um manche, como num avião. O FEI X-1 foi projetado também para andar sobre a água, em uma velocidade de 20 km/h. Na terra podia atingir 150 km/h, quando apoiado nas rodas traseiras. Embora fosse um protótipo, nenhum detalhe de acabamento foi esquecido. Com espaço para duas pessoas, tinha bancos reclináveis, com um painel que exibia seis mostradores redondos, colocados verticalmente no centro.

Como sempre aconteceria a partir de então, e numa prova da inesgotável criatividade daquela equipe, o protótipo foi construído com o material disponível na faculdade. Sua construção em menos de dois meses também era o prenúncio de outra “tradição” que tomaria conta do DEPV: as longas jornadas, nas quais os alunos, técnicos e engenheiros comandados pelo mestre Soler – como se referiam a ele – viveriam para os projetos.

Sucesso no Salão do Automóvel

Tanto trabalho valeu a pena: eles responderam ao desafio de desenvolver e apresentar o projeto em tempo recorde. A ideia era fazer o FEI X-1 chegar rodando ao Salão do Automóvel, e foi o que aconteceu. O protótipo foi pilotado pelo professor Soler, que o levou de São Bernardo do Campo para o Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, onde se realizava o Salão. Seria uma viagem inesquecível para todos.

A visão de um veículo que era um misto de carro, barco e avião chamou muito a atenção das pessoas. Um fato curioso ocorreu na saída da FEI, quando o cabo de acelerador quebrou, forçando o protótipo a parar. Um morador da região, a cavalo, perguntou assustado se Soler não tinha se machucado com a queda do “avião”. Essa passagem entrou para a coleção de histórias da Automobilística.


Alguns carros fizeram a escolta do FEI X-1, inclusive um carro da Polícia Rodoviária, até o Salão, aonde o protótipo chegou rodando sem problemas, a não ser pela atenção que chamava em todas as ruas por onde passou. Mas a maior surpresa foi quando o então prefeito de São Paulo, o brigadeiro Faria Lima, perguntou se ele poderia dirigir o veículo. O prefeito, que era piloto de avião, deu uma volta no FEI X-1 e ficou bastante satisfeito com seu desempenho, embora fosse apenas uma demonstração do protótipo.

Ao se abrirem as portas do Salão do Automóvel de 1968, o protótipo da FEI fez bonito: considerado o veículo mais revolucionário daquela edição do evento, atraiu a atenção do grande público e da mídia especializada o tempo todo.

Marca genética

O desenho criado por Rigoberto Soler foi um prenúncio dos próximos projetos que sairiam do DEPV, como o FEI X-2, o FEI X-3 e o TALAV. Ele já trazia em si a marca genética dos veículos produzidos no departamento: a preocupação com a aerodinâmica, o cuidado com os “sagrados cânones”, como Soler chamava as leis da Mecânica e as da Segurança, pois de nada adiantava um projeto visionário, futurista, se ele não respeitasse essas leis.

Pensando nisso, o grupo do DEPV – que passou por diversas mudanças na equipe com o passar do tempo, mas sempre mantendo o mesmo espírito inovador e empreendedor do início – partiu para novos projetos, como o FEI X-2, o FEI X-3 e o TALAV. Todos esses projetos tinham um “ancestral” em comum: o FEI X-1.

Comentários

  1. Sou muito fã doas trabalhos do saudoso Rigoberto Soler,e gostaria de saber se ainda existem todos os projetos executivos dos trabalhos dele e o que houve com o prototipo do talav 1 e talav?

  2. estou trabalhando em um prototipo de um carro com características semelhantes , mas em escala 1 /8 sendo este radio controlado, visando o mercado de drones; o Fei X-1 sempre me inspirou no meu projeto.

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